Confesso que fiquei estarrecido ao ler os fundamentos utilizados para justificar o perdão judicial concedido a Monique Medeiros no caso que envolveu a morte do menino Henry Borel.
Não porque toda decisão judicial deva agradar a opinião pública. Não deve.
Mas porque os argumentos utilizados parecem revelar algo muito maior do que um simples desacordo jurídico.
Eles revelam uma doença intelectual que vem se espalhando silenciosamente pela nossa sociedade.
Uma doença que despreza fatos, relativiza responsabilidades e substitui a verdade por narrativas ideológicas.
Durante séculos, a civilização ocidental foi construída sobre um princípio simples: cada pessoa responde pelos próprios atos. Parece óbvio, mas nada é mais importante para uma sociedade civilizada. Se alguém causa um prejuízo, deve repará-lo. Se alguém descumpre a lei, deve responder por isso. Se alguém pratica um crime, deve ser responsabilizado. Não importa se é homem ou mulher, rico ou pobre, qual sua cor, religião ou posição política. O que importa são os fatos, a verdade e a responsabilidade individual.
Foi exatamente essa lógica que permitiu a construção das sociedades mais livres, prósperas e estáveis da história.
O problema é que existe uma corrente de pensamento que passou a enxergar o mundo de forma completamente diferente. Para ela, o indivíduo deixa de ser o centro da análise, a responsabilidade individual passa para segundo plano e os fatos se tornam acessórios. O que realmente importa é a identidade das pessoas envolvidas. Se a pessoa pertence a determinado grupo, ela é vista como vítima. Se pertence a outro grupo, passa a ser vista como opressora. Pouco importa o que aconteceu, quem fez o quê ou qual é a verdade. O julgamento começa antes dos fatos e termina antes das provas.
É por isso que conceitos como machismo, misoginia, racismo, homofobia e tantos outros, embora possam descrever situações reais em determinados contextos, muitas vezes deixam de ser utilizados como instrumentos de compreensão da realidade para se transformarem em instrumentos de encerramento do debate.
Observe como isso funciona. Alguém apresenta um argumento. Em vez de responder ao argumento, responde-se com um rótulo. A discussão termina, o pensamento para, a investigação acaba e a busca pela verdade é substituída pela tentativa de identificar culpados previamente definidos.
O resultado é devastador.
Uma sociedade saudável pergunta: “O que aconteceu?”
Uma sociedade adoecida pergunta: “Quem são os envolvidos?”
Percebe a diferença?
Imagine um acidente de trânsito. Um motorista avança o sinal vermelho e colide com outro veículo. Numa sociedade civilizada, a pergunta é simples: quem causou o acidente? Quem descumpriu a regra? Quem gerou o prejuízo? Essa lógica produz responsabilidade, previsibilidade, confiança e civilização.
Agora imagine uma sociedade que abandona essa pergunta e passa a analisar primeiro o sexo, a cor da pele, a religião ou a orientação política dos envolvidos. A justiça desaparece, porque a verdade deixa de ser o critério principal.
Não foi assim que construímos nossa civilização. Os pilares que nos trouxeram até aqui nasceram da combinação entre o direito romano, a filosofia grega e a tradição cristã. O direito romano nos ensinou a importância das regras. A filosofia grega nos ensinou a buscar a verdade por meio da razão. O cristianismo reforçou a dignidade individual e a responsabilidade moral de cada ser humano. Em um mundo inevitavelmente imperfeito, foi essa construção histórica que nos permitiu constituir o melhor modelo de sociedade já existente, capaz de produzir liberdade, prosperidade, estabilidade e convivência entre diferentes sem abandonar a busca pela verdade.
O que me preocupa é perceber o quanto estamos nos afastando desses fundamentos. E essa mudança não acontece apenas nos tribunais. Ela aparece nas universidades, na política, na produção cultural, na imprensa e nas redes sociais.
Primeiro surgem os formuladores dessas ideias. Depois aparecem os políticos que tentam transformá-las em políticas públicas. Em seguida vêm os oportunistas que percebem vantagens pessoais em adotá-las. Por fim, milhões de pessoas passam a repeti-las sem sequer compreender suas consequências.
É assim que uma sociedade muda. Não de uma vez, mas aos poucos. Até que um dia o absurdo passa a parecer normal. E aqueles que defendem fatos, responsabilidade individual e igualdade perante a lei passam a ser tratados como se fossem o problema.
Por isso, talvez o conselho mais importante que eu possa dar seja este: da próxima vez que você ouvir um rótulo sendo utilizado para encerrar uma discussão, não aceite imediatamente a conclusão pronta. Também não a rejeite automaticamente. Faça apenas uma pergunta. Uma pergunta simples. Uma pergunta civilizada.
“O que aconteceu exatamente?”
Peça os fatos. Peça as provas. Procure a verdade.
Porque uma democracia saudável depende de cidadãos capazes de pensar. Uma democracia saudável depende de debates livres. Uma democracia saudável depende de pessoas dispostas a investigar antes de condenar.
Quando os fatos deixam de importar, a justiça se transforma em instrumento de poder.
Quando a responsabilidade individual desaparece, a liberdade começa a desaparecer junto.
E quando a busca pela verdade é substituída por narrativas ideológicas, não estamos avançando.
Estamos retrocedendo.
A civilização não é destruída em um único dia.
Ela é corroída lentamente, sempre que trocamos a verdade por rótulos, a razão por slogans e os fatos por narrativas.
É por isso que a defesa da verdade continua sendo um ato de coragem.
E talvez seja exatamente dela que mais precisamos neste momento da nossa história.