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Há poucos dias terminou mais uma Copa do Mundo. Como acontece a cada quatro anos, o país parou para assistir à Seleção Brasileira. Mas, desta vez, a sensação deixada pelo apito final pareceu diferente. Não foi apenas a frustração por mais uma campanha abaixo da tradição do futebol brasileiro. Foi algo mais profundo. Pela primeira vez, tive a impressão de que não lamentávamos apenas uma derrota. Lamentávamos o desaparecimento de uma parte de nós mesmos.
Durante décadas, a Seleção nunca representou apenas onze jogadores. Ela simbolizava o estado de espírito de um povo. O brasileiro olhava para o campo e se reconhecia na criatividade, na ousadia, na alegria e, sobretudo, na extraordinária capacidade de vencer mesmo quando tudo parecia conspirar contra. Nossa autoestima nunca nasceu da ausência de dificuldades. Pelo contrário. Ela florescia justamente porque aprendemos a transformar adversidades em motivo de superação.
Foi assim que o Brasil construiu sua identidade. Um país formado por portugueses, indígenas, africanos, italianos, japoneses, alemães, árabes, judeus e tantos outros povos, que realizou algo raro na história: transformar pessoas de origens completamente diferentes em brasileiros. Em poucas gerações, desapareciam os rótulos e permanecia apenas uma identidade comum. Poucas nações conseguiram integrar culturas tão diversas sem abrir mão de uma personalidade própria.
Sempre fomos um povo naturalmente acolhedor. Nossa alegria nunca foi ingenuidade. Era uma forma de enfrentar a dureza da vida. Nossa esperança não ignorava os problemas. Era a convicção de que seria possível superá-los. Nosso patriotismo nunca dependeu da perfeição do país, mas da certeza de que ele valia a pena.
É justamente por isso que a perda dessa confiança merece reflexão. Muitos atribuem o fenômeno apenas ao desgaste das instituições, às dificuldades econômicas ou às transformações do mundo moderno. Esses fatores existem. Mas seria um erro ignorar o papel desempenhado por um projeto político que, ao longo de décadas, passou a enxergar a divisão permanente da sociedade como instrumento de poder.
Muito se fala em polarização. A própria palavra tornou-se uma explicação conveniente para todos os nossos males. Entretanto, democracias sempre conviveram com intensos conflitos de ideias. O século XX foi marcado por disputas profundas entre liberais, conservadores, social-democratas e comunistas. Divergir nunca foi o problema. O verdadeiro problema começa quando o adversário deixa de ser visto como alguém que pensa diferente e passa a ser tratado como um inimigo moral, indigno de respeito e até mesmo de convivência.
Foi exatamente essa lógica que ganhou força no Brasil nas últimas décadas. A esquerda radical, tendo no PT seu principal instrumento político e em Lula sua maior liderança, passou a incentivar uma leitura da realidade baseada na permanente fragmentação da sociedade. Brasileiros foram estimulados a enxergar uns aos outros como representantes de grupos inconciliáveis, substituindo aquilo que nos unia por narrativas que enfatizam o conflito como condição permanente da vida pública.
Ao mesmo tempo, consolidou-se um ambiente cultural em que tradições nacionais passaram a ser frequentemente tratadas com desconfiança. A valorização da história brasileira, dos símbolos nacionais, da herança cristã, da família e de tantos elementos que ajudaram a formar nossa identidade foi sendo substituída por uma visão que, muitas vezes, enxerga essas referências mais como obstáculos do que como patrimônio comum. Universidades, setores da produção cultural e parte do debate público passaram a privilegiar uma única corrente ideológica em detrimento do pluralismo intelectual.
Essa mesma visão também se refletiu em escolhas políticas que aproximaram o Brasil de regimes autoritários e relativizaram violações de direitos praticadas por governos estrangeiros, ao mesmo tempo em que aprofundaram divisões internas. Não considero esse movimento compatível com a tradição de um país que sempre buscou afirmar sua soberania, preservando sua identidade e sua vocação democrática.
O resultado é que fomos perdendo algo que não aparece nas estatísticas. Perdeu-se a confiança. Perdeu-se o entusiasmo. Perdeu-se a convicção de que o Brasil poderia voltar a ser grande. E isso talvez seja mais difícil de reconstruir do que estradas, prédios ou indicadores econômicos.
Não acredito que bastará formar uma nova geração de jogadores para que a Seleção volte a encantar o mundo. Os atletas de hoje são filhos do Brasil de hoje. Da mesma forma, não bastará apenas uma mudança de governo para restaurar aquilo que fomos. Reconstruir a identidade do povo exigirá muito mais.
Será preciso recuperar o orgulho de ser brasileiro, voltar a ensinar nossa história sem vergonha dela, fortalecer as famílias, valorizar a cultura que nos formou, respeitar nossa herança cristã e restabelecer um ambiente em que seja possível discordar sem transformar o outro em inimigo.
Ainda há tempo. Muitos brasileiros continuam vivos para lembrar às novas gerações como era este país quando a esperança parecia mais forte do que o ressentimento, quando o patriotismo unia mais do que dividia e quando acreditávamos, com a simplicidade própria de nossa gente, que nenhum obstáculo era grande demais para um povo que nunca desistia.
Restaurar essa essência é um desafio muito maior do que vencer uma Copa do Mundo. Mas talvez seja a vitória mais importante que o Brasil precisa conquistar. Que vençamos o primeiro obstáculo: aqueles que destruíram aquilo que tínhamos de mais precioso, a nossa brasilidade.