A polarização é realmente o problema?

Nos últimos anos, tornou-se comum ouvir que o maior problema do Brasil seria a chamada “polarização”. O termo aparece quase sempre como crítica genérica, lançada sem muito cuidado, como se o simples fato de existirem posições opostas fosse, em si, algo negativo. Esse discurso soa elegante, moderado e civilizado. Mas, na prática, ele tem servido para desviar o foco do que realmente importa.

O Brasil não enfrenta um problema de tom. Enfrenta um problema de fundo.

Quando alguém insiste em tratar a polarização como o grande mal do país, geralmente está tentando deslocar o debate do conteúdo para a forma. Em vez de discutir valores, prioridades e consequências reais das decisões políticas, prefere-se falar sobre clima, harmonia e modelo ideal de convivência. É como se a casa estivesse pegando fogo e alguém resolvesse discutir a qualidade estética do tapete da sala.

Hoje, o país vive uma oposição clara de valores. De um lado, há uma linha de pensamento que defende um Estado mais enxuto e eficiente, o respeito à lei, a liberdade de expressão, o direito de propriedade, a liberdade religiosa, a valorização das virtudes e a proteção da família. Pessoas que não aceitam ser oprimidas pelo crime, que avançou, se organizou e se fortaleceu ao longo do tempo, muitas vezes diante da omissão ou da incapacidade do próprio Estado.

Esses cidadãos não pedem privilégios. Pedem o básico: segurança, liberdade e regras que valham para todos.

No passado recente, a chamada polarização era outra coisa. Tratava-se, em grande medida, de uma disputa entre grupos políticos que defendiam agendas muito semelhantes, com diferenças mais de método e linguagem do que de princípios. Uma esquerda mais radical e populista de um lado, outra mais palatável e institucional do outro. Ambas, porém, partiam das mesmas premissas e propunham soluções parecidas para o país. Era uma polarização que, no fundo, não oferecia caminhos realmente distintos.

Esse arranjo ficou conhecido, de forma simplificada, como a “teoria das tesouras”: dois lados aparentando oposição, mas cortando na mesma direção.

Com o surgimento de uma direita no Brasil, essa lógica mudou. E mudou de verdade. Pela primeira vez em muito tempo, passaram a existir projetos de país baseados em valores diferentes, não apenas em estilos de gestão. A polarização deixou de ser estética e passou a ser substantiva. Isso incomoda. E muito.

Parte daqueles que antes se revezavam no poder perdeu representação social. Já não consegue se conectar com os anseios reais da população. Diante disso, o discurso que sobrou foi o de condenar o conflito em si, como se o problema estivesse na existência de divergência, e não na incapacidade de oferecer respostas concretas aos dramas do país.

Enquanto isso, o cidadão comum convive com a violência diária, com leis que parecem proteger mais o criminoso do que quem trabalha, com ataques à liberdade de expressão, com perseguições políticas disfarçadas de decisões técnicas e com um sistema que se fecha para se proteger. Não é exagero dizer que a democracia brasileira foi profundamente deformada. Instituições que deveriam servir ao povo passaram, muitas vezes, a servir a si mesmas.

Nesse contexto, falar apenas de “modelo de administração” ou de soluções abstratas importadas de fora soa desconectado da realidade. Os problemas do Brasil são, em grande parte, locais. Exigem respeito à vontade da população, às suas prioridades e aos seus valores. Soluções globais, pensadas longe do cotidiano das pessoas, frequentemente ignoram o que acontece na rua, no bairro, na cidade.

A descentralização do poder, o fortalecimento da democracia real e a proximidade entre decisão política e vida concreta fazem diferença. Não por ideologia, mas por eficácia.

O exemplo de países que decidiram enfrentar o crime de forma direta mostra que não se trata de impossibilidade, mas de escolha. Quando há vontade política, clareza de valores e respaldo popular, é possível mudar realidades que antes pareciam imutáveis.

Diante de tudo isso, é preciso dizer com clareza: não há problema na polarização. Em países totalitários, a polarização simplesmente não existe. O conflito de ideias é parte natural de sociedades livres. O verdadeiro problema é a destruição da democracia, o enfraquecimento das liberdades e a ausência de agentes públicos dispostos a enfrentar o sistema em nome do interesse do povo.

O Brasil precisa de representantes que não apenas compartilhem os valores da sociedade, mas que também sejam qualificados para transformá-los em políticas públicas de alto nível. Gente preparada, com coragem, responsabilidade e compromisso real com quem os elegeu.

Existe, sim, uma direita que entende isso. Uma direita que não se limita à indignação, mas que busca direção. E existe um cidadão cansado de discursos vazios, disposto a participar desse processo.

O caminho não passa por silenciar o debate, mas por assumir, com maturidade, que valores importam. E que, juntos, uma direita qualificada e uma sociedade consciente podem, sim, direcionar o país para fora do colapso.

Não é uma questão de estética ou um discurso vazio. É uma questão de sobrevivência da civilização brasileira, da nossa descendência, da nossa liberdade e do nosso futuro.

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