“No momento o que quero são fatos. Ensine a esses meninos e meninas nada além de fatos. Somente fatos são necessários na vida.” Logo nas primeiras linhas da memorável obra de Charles Dickens, somos introduzidos à pedante figura de Mr. Gradgrind, professor de “fatos e cálculos”, personagem caricata e crítica aberta aos importantes filósofos da cena inglesa, Bentham e James Mill, cuja pedagogia experimental já havia produzido a primeira das vítimas: John Stuart Mill.
Assim como a filha mais velha da família Gradgrind, Louisa, o jovem John Stuart aprendeu a reprimir os sentimentos e a imaginação. Também como Louisa, o fruto de anos de aprendizado “eminentemente prático” garantiu-lhe, por volta dos vinte anos de idade, uma profunda depressão e violenta crise nervosa.
O ideal educativo, portanto, era produzir homens científicos, atentos aos fatos, e não é mera coincidência que Stuart Mill tenha travado amizade com outro elaborador de sistemas perfeitos de sua época, antigo conhecido dos brasileiros, chamado Augusto Comte. Mesmo após a crise nervosa “curada” com boas doses de poesia, Mill ainda era um “experimento” pedagógico.
Ora, os educadores de hoje podem dizer que modernamente não temos mais esse ensino antiquado, que os métodos de Gradgrind se assemelhariam mais ao tão criticado “ensino tradicional”. Contudo, as “inovações” pedagógicas assemelham-se muito mais aos métodos gradgrindianos do que aparentam.
Ainda nos exemplos literários, tomemos a personagem Eustáquio Clarêncio Mísero da obra A Viagem do Peregrino da Alvorada de C.S. Lewis. Os pais de Eustáquio eram “gente moderna, de ideias abertas. Vegetarianos, não fumavam nem bebiam” e o filho, carinhosamente chamado por eles apenas de Mísero, “gostava de livros instrutivos com gravuras em que se podiam ver armazéns para guardar cereais ou robustas crianças estrangeiras fazendo ginástica em escolas-modelo”. No entanto, tal educação instrutiva e eminentemente prática, o tornara “bestalhão demais para imaginar seja lá o que fosse”, não permitindo-lhe ver nos aventureiros primos e nas histórias de Nárnia “a menor graça”.
Mesmo estando em Nárnia, Eustáquio não estava preparado para os desafios de tal terra encantada e, ao buscar abrigo numa caverna de dragão, deparou-se com um tesouro. Por ter sido criado numa escola em que os livros só falavam de “exportações e importações, de governos e de canos de esgoto”, nada sabia a respeito de dragões. Contudo, sabia que tesouros poderiam ser muito vantajosos, e uma vez que estava preso naquela terra “estúpida”, começou a calcular as vantagens da rica descoberta. Nunca aprendera qualquer virtude (como a prudência) ou conhecera qualquer limitação à sua vontade soberana de filho único de pais “modernos”, portanto lucrar com o tesouro do dragão lhe parecia a única atitude racional.
Caso Eustáquio tivesse lido livros que prestassem para alguma coisa no reino de Nárnia (e em qualquer outro reino encantado), saberia que as escolhas têm consequências, e que más escolhas– como a que fez ao colocar o bracelete de ouro do dragão, poderiam causar um grande prejuízo. Como nada sabia da arte de “saber escolher” ou da “Doutrina da Alegria Condicional” vigente em terras encantadas, Eustáquio sofreu as penas de tamanha ignorância e acabou transformado em dragão.
Um homem educado somente por fatos (e no caso da moderna sociedade da informação, com um acúmulo de informações), não pode ser chamado de educado, mas simplesmente de informado. Educar sem oferecer a possibilidade da formação juízos de valor baseados na constante comum de humanidade, é criar “primatas de calças”, que verdadeiramente destituídos da capacidade humana de imaginar ou sentir, tornar-se-ão “homens sem peito”, os homens desumanos da sociedade moderna.
Graças aos Gradgrinds de ontem e hoje, a educação do homem é voltada para o trabalho, o dinheiro e o sucesso na vida. O que esquecemos é que sem imaginação e sentimentos demolimos, ao mesmo tempo, o senso daquilo que é bom, belo e verdadeiro, tornamo-nos ignorantes das virtudes, tiranizados pelo próprio arbítrio desregrado e escravos dos instintos mais primitivos. Como dizia o saudoso educador beneditino D. Lourenço de Almeida Prado: “Uma educação não é completa se não chegou à sabedoria, à intuição e ao amor”.


