A Constante Comum de Humanidade

“A arte imita a natureza” – dizia Aristóteles (384-322 a.C.), e completava Edmund Burke (1729-1797), “A arte é a natureza do homem”. Assim, a natureza do homem está na co-criação, no completar o Criador, como diz o Gênesis, “façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. Assim como Deus, podemos “ver” a criação, e, como seres humanos, a vemos intermediada pela razão. Os movimentos do espírito humano vão da apreciação das coisas, “da simples apreensão dos sentidos” à formulação de conceitos, e destes surgem juízos e raciocínios. Tais juízos refletirão valores. Contudo, admitir a existência de valores parece não ser suficiente para guiar a conduta dos homens no mundo.

Atualmente, a palavra ‘valor’ tem sido utilizada de maneira dissimulada e indiscriminada para substituir quaisquer noções de ‘norma’, ‘padrão’, ‘princípio’ ou ‘verdade’. Para os modernos, o ‘valor’ nega a existência de um significado moral transcendente ou permanente e nada mais é que uma preferência pessoal que gratifica quem com ele se identifica, muito embora não possa ser ‘imposto’ a ninguém. Falamos, por exemplo, de “valores” como um substitutos dos pressupostos religiosos a respeito da natureza do homem. Nessa perspectiva, por exemplo, ‘honra’, ‘coragem’, ‘prudência’, ‘temperança’ e ‘liberdade’ são palavras sem significado objetivo que podem transmitir algum ‘valor’ para um determinado grupo que delas tire proveito, mas que podem ter seu “conteúdo valorativo” modificado por alguma “virada linguística” podendo ser, até mesmo, descartadas.

No entanto, todo juízo é fruto de uma comparação, o que nos remete a algo além do mero valor subjetivo, a alguma coisa que seja detectável pela razão, a que devemos nos reportar, se desejarmos ser verdadeiros homens. O que seria isso?

Na busca do homem humano, permitam a aparente redundância, devemos nos reportar ao que chamamos de constante comum de humanidade: avaliações que se sobrepõem às diferenças individuais, culturais, temporais, e que conseguem minimizar as influências do meio exterior. Isso é o que nos faz, até hoje, compreender o que diziam egípcios, nórdicos, babilônicos, hindus, judeus, romanos e tantos outros povos desde os primórdios da história. Admitir tal constante é compreender a precedência de uma natureza humana, é pressupor que exista algo que torna o homem, embora primata, diferente do macaco.

C. S. Lewis (1898-1963), no indispensável livro A abolição do homem, chama a essa constante comum de humanidade de Tao (que significa “o caminho”, na tradição confuciana). O Tao seria conjunto das coisas permanentes, as normas, o conjunto de verdades, e o padrão de significados sempre percebidos e cultivados pelos seres humanos desde que temos registro.

“Honra teu pai e tua mãe, para que teus dias se prolonguem sobre a terra” (Ex 20,12), por exemplo, é uma injunção da qual todos os povos têm consciência. Isso nos demonstra que embora na casa do Pai existam muitas moradas e nem todas se encontrem no mesmo andar, os dogmas judaicos e cristãos não possuem direitos exclusivos sobre essa revelação, ainda que tenham se mostrado a mais clara e suprema expressão da “normalidade moral” para o homem.

Dessa maneira, o conjunto desses primeiros lugares comuns ou princípios da razão prática dá ao homem a certeza de que há posturas realmente verdadeiras e outras realmente falsas e o permite comparar as criações para emitir juízos e dizê-las verdadeiras, belas ou boas. Aprovar ou desaprovar são reconhecimentos do valor objetivo das coisas apreciadas ou respostas a uma ordem objetiva, racional.

Assim, o homem humano é aquele que tem a capacidade de perceber (em graus que variam subjetivamente, é claro) as qualidades do próprio objeto e julgá-las boas ou más, verdadeiras ou falsas, belas ou feias segundo a constante comum de humanidade.

Todavia, no moderno reino do subjetivismo exacerbado, a transmissão da herança moral de gerações imemoriais é banida do horizonte, tornando virtudes e vícios em meras “preferências de valor”. Os indivíduos dessa sociedade “valorativa” são tiranizados pelos próprios egos voluntaristas e vaidosamente passam a decidir se preferem a justiça ou a injustiça, a prudência ou a imprudência, a liberdade ou a servidão não se importando se isso trará danos para eles mesmos ou para os demais membros da comunidade. Uma geração anormal “brinca com os pecados conforme acha melhor”; é uma geração de monstros, escravizada pela vontade e pelo apetite. Vivem a pior das servidões, o império da anormalidade.

Negar a normalidade corresponde a uma mutilação e produz o que C. S. Lewis chama de “primata de calças”. Fazer da anormalidade regra é condicionar o homem “a tomar um determinado partido numa controvérsia que ele jamais soube existir”, pois todas as coisas permanentes lhe foram negadas. Recuperar a capacidade de apreensão da constante comum de humanidade, ou seja, da normalidade é, pois, adquirir a compreensão da própria natureza da pessoa e da verdadeira natureza da criação.